Archive for the ‘Micro conto’ Category:

Mistura

Mistura

maos_po

Apregoava memórias em pó. Bastava juntar água ou lágrimas conforme o estado de espírito.

Literacia

Literacia

livro_aberto

Eram ambos um livro aberto. O problema é que nenhum dos dois sabia ler.

Acordar

Acordar

despertador_po

A cada dez minutos desligava o despertador. A todo o custo queria regressar aos sonhos antes de ter de se levantar e viver os pesadelos.

Correria

Correria

rapariga_correr

Passava o dia a correr de um lado para o outro. Mas, apesar de toda aquela correria, não havia forma de a vida lhe correr como ela queria.

Canino

Canino

pinchos

Quando te vi pela primeira vez, o meu coração latiu. Quando te beijei, uivou. Por fim, quando tu desapareceste, ganiu.

Medida

Medida

metro_lisboa

Todos os dias, para ir trabalhar e para regressar a casa, apanhava o Metro. Mesmo assim, sentia que havia muitos anos que a sua vida não avançava nem um centímetro em direcção aos sonhos que tinha.

 

Ganho

Ganho

ferramentas

Começou a trabalhar desde tenra idade. Fez de tudo na vida sem nunca se negar às mais árduas tarefas. Para ele não havia feriados, fins de semana ou férias, só trabalho. Passou tanto tempo a tentar ganhar a vida que só no fim é que se deu conta que a perdeu.

Encontro

Encontro

chave_velha

Andou perdido toda a vida, até que um dia a encontrou.

Validade

Validade

carta_antigas

Deixámos tanto por dizer. Foi como se as palavras tivessem um preço demasiado alto para as podermos usar. Ali ficámos procurando nos olhos o que as bocas escondiam. Afastámo-nos e os anos discorreram sem freio. Até que um dia escreveste uma carta. Dizias que o meu amor ainda te doía e as feridas tardavam em sarar. Demorei, mas encontrei finalmente o antídoto para essa dor. Espero que o recebas ainda dentro prazo. Estarei no sítio de sempre à tua espera.

Liberdade

Liberdade

aliancas_madeira

O anel pesava, sufocava e apertava-lhe a garganta como a corda de uma forca. Os anos sucederam-se e apenas deixaram frutos enrugados e azedos. Decidiu que nessa noite seria escrita a última página da tragédia. Só que ele não veio dormir a casa. Os dias passaram sem notícias. A polícia fez poucas perguntas e nunca mais voltou. As pessoas começaram a soltar calúnias. Ela não se importou. Vestiu-se de negro, enterrou o anel no quintal e saboreou as laranjas, que agora eram doces como o mel.